A maternidade e contemporaneidade: a travessia
- Amanda Lantyer
- 17 de jul.
- 2 min de leitura

Texto escrito em 17/07/2026
Nunca conheci uma mulher que não tenha sido atravessada profundamente pela experiência de ser mãe, independentemente de ser gestando ou adotando. A maternidade nos faz mergulhar em águas profundas da nossa psique e, talvez por isso, cause uma certa bagunça interna que leva anos para ser elaborada. Mesmo aquelas que interrompem uma gravidez, por meios naturais ou não, frequentemente carregam a inscrição dessa experiência, que pode se apresentar como saudade, culpa, alívio, sofrimento ou silêncio.
A maternidade contemporânea parece ter chegado a um ponto de esgotamento. Há a sobrecarga mental e de trabalho dentro e fora de casa, mas não é apenas isso que nos atravessa. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil sustentar uma escuta de si. Criar filhos deixou de ser repetir modelos familiares para se tornar um exercício permanente de consultar especialistas, comparar métodos e tentar acertar.
Ao mesmo tempo, vivemos em uma era profundamente tecnológica, em que as telas ocupam o trabalho, o entretenimento, os vínculos e até os momentos de descanso. Freud escreveu que "o eu não é senhor em sua própria casa". Se isso já era verdade há mais de um século, o que dizer de um sujeito permanentemente atravessado por notificações, imagens, expectativas e algoritmos?
A sensação de isolamento também atravessa muitas experiências maternas. Surgem perguntas inevitáveis: que mãe queremos ser? Que filhos queremos criar para este mundo? Enquanto idealizamos uma maternidade possível, a panela está no fogo, a criança chora porque quer mais iogurte antes do almoço e o celular insiste em mostrar alguém que parece dar conta de tudo. Mas será que dá?
Nem toda pessoa precisa de análise ou de terapia. Mas ambas oferecem algo que vem se tornando cada vez mais raro: um tempo para falar e para pensar a própria vida. Não como um simples desabafo, mas como um exercício de construção de sentido. Um espaço em que seja possível olhar para aquilo que, na correria cotidiana, aprendemos a evitar.
Há uma frase frequentemente atribuída a Jung que diz: "Até você se tornar consciente, o inconsciente dirigirá sua vida e você o chamará de destino." Independentemente da autoria exata da frase, ela nos convida a uma reflexão importante. Se hoje mal conseguimos sustentar a atenção sobre aquilo que fazemos conscientemente, quem tem conduzido nossas escolhas? Nossos desejos? Nossos medos? Ou seriam os algoritmos, as expectativas sociais e as urgências permanentes falando mais alto do que nossa própria experiência?
A maternidade é uma travessia que acompanha o crescimento dos filhos, mas também o nascimento de versões sucessivas de quem materna. Não existe um momento em que tudo finalmente se resolve. Existem novos encontros, novos conflitos e novas perguntas.


